Fonologia 音 · 03
As vogais orais
O português europeu distingue sete vogais orais em sílaba tónica — /i e ɛ a ɔ o u/ — incluindo o contraste de abertura que opõe avô a avó e sê a sé.
ptO português europeu possui, em sílaba tónica, um sistema de sete vogais orais: /i/, /e/, /ɛ/, /a/, /ɔ/, /o/ e /u/. É um dos inventários mais ricos entre as línguas românicas e a base sobre a qual assentam fenómenos tão característicos da língua como a redução vocálica e a nasalidade. Conhecer estes sete timbres é o primeiro passo para descrever a pronúncia do português.
O triângulo vocálico
As vogais distinguem-se por dois parâmetros articulatórios principais: a altura da língua (de fechada a aberta) e o seu recuo (vogais anteriores, centrais e posteriores). Dispostas segundo estes eixos, as sete vogais desenham o clássico triângulo vocálico, com /i/ e /u/ nos vértices superiores e /a/ na base.
| Símbolo | Descrição | Exemplo | Significado |
|---|---|---|---|
| [i] | anterior fechada | *vi* | vi (verbo ver) |
| [e] | anterior semifechada | *vê* | vê (verbo ver) |
| [ɛ] | anterior semiaberta | *pé* | pé |
| [a] | central aberta | *pá* | pá, ferramenta |
| [ɔ] | posterior semiaberta | *pó* | pó, poeira |
| [o] | posterior semifechada | *avô* | avô |
| [u] | posterior fechada | *tu* | tu |
As vogais anteriores são produzidas com os lábios distendidos; as posteriores, com arredondamento labial — daí /u/, /o/ e /ɔ/ se dizerem também vogais arredondadas.
O contraste de abertura
O traço mais distintivo do sistema é a oposição, dentro das vogais médias, entre um timbre fechado (semifechado) e um timbre aberto (semiaberto). A escrita não o assinala de forma sistemática — e e o podem valer tanto o som fechado como o aberto —, mas a diferença é fonológica: muda o significado das palavras.
avô [ɐˈvo] · avó [ɐˈvɔ]
Só a abertura da vogal posterior tónica distingue «avô» de «avó».
sê [se] · sé [sɛ] | este [ˈeʃtɨ] · leste [ˈlɛʃtɨ]
Pares mínimos em que apenas o timbre da vogal anterior média opõe as palavras.
O acento gráfico ajuda em parte: o circunflexo marca tipicamente a vogal fechada (pôde, avô) e o agudo a aberta (pode, avó), embora a maioria das palavras não seja acentuada e o timbre tenha então de ser conhecido caso a caso.
A questão da vogal central [ɐ]
Ao lado do /a/ aberto de pá, o português europeu apresenta uma vogal central mais fechada, [ɐ], que ocorre em sílaba tónica sobretudo antes de consoante nasal, como em cama [ˈkɐmɐ] ou câmara [ˈkɐmɐɾɐ] . Há discussão entre fonólogos sobre se este [ɐ] constitui uma oitava vogal ou um simples alofone de /a/.
Apenas em sílaba tónica
Estes sete contrastes só se realizam plenamente na sílaba acentuada. Em posição átona, o sistema reduz-se drasticamente: as vogais médias e baixas tendem a fechar-se e a centralizar-se, e o inventário átono final fica praticamente limitado a [ɨ], [ɐ] e [u]. É por isso que a mesma raiz muda de vogal consoante a sílaba seja tónica ou não.
belo [ˈbɛlu] → beleza [bɨˈlezɐ]
O /ɛ/ tónico de «belo» reduz-se a [ɨ] quando o acento se desloca em «beleza».
Este apagamento das vogais átonas — muito mais acentuado do que noutras variedades — dá ao português europeu o seu ritmo característico, de aparência «comprimida», e trata-se em detalhe no artigo sobre a redução vocálica.
Por que importam
As sete vogais orais são o ponto de partida de quase toda a fonologia do português. Combinam-se com semivogais para formar ditongos, nasalizam-se diante de consoante nasal dando origem às vogais nasais, e reduzem-se em posição átona segundo regras próprias da variedade europeia. Dominar a oposição entre timbres fechados e abertos é, além disso, indispensável para uma pronúncia correta — e uma das maiores dificuldades para quem aprende português.
Fontes
- The Phonology of Portuguese . Oxford University Press (2000)
- European Portuguese (Illustrations of the IPA) . Journal of the International Phonetic Association (1995)
- Nova Gramática do Português Contemporâneo . Edições João Sá da Costa (1984)