Fonologia 音 · 04

As vogais nasais

O português distingue cinco vogais nasais — /ɐ̃ ẽ ĩ õ ũ/ —, em que o ar escapa pela boca e pelo nariz. É um dos seus traços mais reconhecíveis e o que opõe lã a lá ou mundo a mudo.

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Poucos traços identificam o português tão depressa como as suas vogais nasais — o som de , fim ou bom, produzido com o ar a escapar ao mesmo tempo pela boca e pelo nariz. Ao lado das sete vogais orais, a língua dispõe de um sistema paralelo de cinco vogais nasais, /ɐ̃ ẽ ĩ õ ũ/, que está na origem de pares como [lɐ̃] e [la] . Entre as grandes línguas românicas, só o francês conserva um conjunto de nasais comparavelmente desenvolvido.

As cinco vogais nasais

Uma vogal diz-se nasal quando, durante a sua produção, o véu palatino (a parte mole do céu da boca) desce e deixa o ar ressoar também nas fossas nasais. O português possui cinco timbres nasais, distribuídos pelo mesmo espaço articulatório das vogais orais, mas em menor número.

As cinco vogais nasais do português europeu
SímboloDescriçãoExemplos
[ɐ̃]central*lã*, *campo*, *canto*
[ẽ]anterior semifechada*pente*, *tempo*, *lenço*
[ĩ]anterior fechada*fim*, *sim*, *tinta*
[õ]posterior semifechada*bom*, *ponte*, *conta*
[ũ]posterior fechada*um*, *mundo*, *atum*

A nasalidade não é um mero adorno da pronúncia: é distintiva, isto é, muda o significado das palavras. Por isso manto não é mato, nem minto é mito.

mato [ˈmatu] · manto [ˈmɐ̃tu]  |  mito [ˈmitu] · minto [ˈmĩtu]

Só a nasalidade da vogal tónica separa cada par.

coto [ˈkotu] · conto [ˈkõtu]  |  mudo [ˈmuðu] · mundo [ˈmũdu]

O mesmo contraste nas vogais posteriores: a oposição oral ~ nasal carrega toda a diferença.

Cinco nasais, sete orais

O sistema nasal é mais pobre do que o oral, e a assimetria é reveladora. Em sílaba tónica, as vogais orais distinguem dois graus de abertura nas médias — o fechado de avô [ɐˈvo] contra o aberto de avó [ɐˈvɔ] —, mas essa oposição desaparece sob nasalidade. Não há em português um [ɛ̃] aberto nem um [ɔ̃] aberto: as médias nasais são sempre fechadas, [ẽ] e [õ]. Do mesmo modo, a vogal baixa nasal não é o [a] aberto de , mas a vogal central [ɐ̃], mais alta. A nasalização, por outras palavras, neutraliza contrastes de timbre que as vogais orais mantêm — e é por isso que sete orais correspondem a apenas cinco nasais.

Como se escreve a nasalidade

A ortografia portuguesa assinala a nasalidade de duas maneiras, nunca com uma vogal «especial»:

  • pelo til (~) sobre a vogal — ã e õ —, sobretudo nos ditongos -ão, -ãe e -õe e em palavras como , irmã, maçã. O til não é um acento de intensidade: nasceu na escrita medieval como um pequeno n sobreposto à vogal, abreviatura que se fixou como sinal de nasalidade;
  • por uma consoante nasalm ou n — no fim da sílaba. Escreve-se m antes de p e b e no fim de palavra (campo, tempo, bom, um) e n diante das outras consoantes (canto, ponte, mundo, lenço, tinta).

Nestes casos, o m ou o n não representam uma consoante plena: a sua função é marcar que a vogal anterior é nasal. Campo não se diz [ˈkampu], com um [m] nítido, mas [ˈkɐ̃pu] , com a nasalidade alojada na própria vogal.

De onde vêm: a queda de uma consoante nasal

As vogais nasais do português são herança de uma consoante nasal latina que se diluiu na vogal vizinha. Há dois percursos principais. Quando o latim tinha um -m ou -n em fim de sílaba, a consoante foi-se apagando e deixou a sua marca na vogal: CAMPUM > campo, TEMPUS > tempo. E quando havia um /n/ entre vogais, essa consoante caiu por completo, sobrevivendo apenas como nasalidade — o mesmo fenómeno que individualizou cedo o galego-português.

lat. LANA → lãa · lat. BONUM → bõobom · lat. MANUM → mão

A consoante nasal intervocálica desaparece e a vogal que a precedia fica nasalizada de forma permanente.

O processo nem sempre se manteve: em LŪNA > lũa > lua, a vogal acabou por desnasalizar entre vogais, ao passo que em fim de palavra a nasalidade resistiu. Daí que muitos plurais e derivados portugueses guardem ainda a memória desse antigo ncão ~ cães, leão ~ leões —, em alternâncias que são fósseis vivos da história fonética da língua.

Fonemas ou sequências?

Os fonólogos não estão de acordo quanto ao estatuto destas vogais. A análise tradicional conta-as como cinco fonemas nasais de pleno direito, ao lado dos orais. Uma análise mais recente, defendida por Mateus e d’Andrade, prefere vê-las como a realização de uma vogal oral seguida de uma consoante nasal subjacente em fim de sílaba — um elemento nasal sem ponto de articulação fixo, que nasaliza a vogal e raramente aflora como consoante plena.

O argumento mais forte a favor desta segunda leitura é que a consoante nasal reaparece mal a palavra ganha um sufixo ou se liga à seguinte: a vogal nasal de fim volta a mostrar o seu */n/ em final; a de som, em sonoro; a de um, no feminino uma; a de bom, em bondade. Seja qual for a análise preferida, o facto fonético permanece: a nasalidade é contrastiva e os pares mínimos acima continuam a opor-se.

No Brasil e em Portugal

A nasalidade existe nas duas margens do Atlântico, mas distribui-se de modo distinto.

Um erro comum

Para o ouvido estrangeiro, a tentação é interpretar a vogal nasal como uma vogal oral seguida de um n bem audível, e pronunciar fim como [fin] ou bom como [bɔn]. O resultado soa imediatamente a sotaque, porque desfaz justamente aquilo que caracteriza a vogal nasal portuguesa: a nasalidade reside na própria vogal, e não numa consoante que se lhe siga. O treino consiste em descer o véu palatino desde o início da vogal e em não fechar a passagem com a língua no fim — deixar a nasalidade dissolver-se no ar, sem rematar com um [n] ou um [m].

Por que importam

As cinco vogais nasais são uma das assinaturas sonoras do português e uma das primeiras dificuldades de quem o aprende, habituado a línguas em que a vogal nasal não distingue palavras. São também foneticamente mais longas e ligeiramente mais fechadas do que as suas congéneres orais, pormenores que reforçam a sua presença. Combinam-se ainda com as semivogais para formar os ditongos nasaispão [pɐ̃w̃] , mãe [mɐ̃j̃] , põe [põj̃] —, que multiplicam a nasalidade no fim das palavras e dão à língua boa parte da sua música. Dominar a oposição entre vogal oral e vogal nasal é, por tudo isto, indispensável para uma pronúncia portuguesa correta.

Fontes

  1. Maria Helena Mateus & Ernesto d'Andrade. The Phonology of Portuguese . Oxford University Press (2000)
  2. Madalena Cruz-Ferreira. European Portuguese (Illustrations of the IPA) . Journal of the International Phonetic Association (1995)
  3. Paul Teyssier. História da Língua Portuguesa . Sá da Costa (1980)
  4. Celso Cunha & Lindley Cintra. Nova Gramática do Português Contemporâneo . Edições João Sá da Costa (1984)