Ortografia 字 · 08
O hífen e a translineação
As duas vidas do hífen — sinal fixo na composição, na prefixação e nos clíticos, e sinal provisório na divisão de palavras no fim da linha — segundo o Acordo de 1990.
ptO hífen (‹-›) tem na ortografia portuguesa duas vidas bem distintas. É, por um lado, um sinal fixo que pertence à grafia de certas palavras — une os elementos de um composto, liga um prefixo ao radical e prende os pronomes clíticos ao verbo. É, por outro, um sinal provisório, usado apenas para partir uma palavra no fim da linha — a translineação. O Acordo Ortográfico de 1990 reformou sobretudo a primeira função, simplificando regras que antes variavam entre Portugal e o Brasil.
O hífen na composição
Usa-se hífen para unir os elementos de muitos compostos em que cada parte conserva a sua identidade — substantivos, adjetivos e expressões cristalizadas:
guarda-chuva · couve-flor · arco-íris · segunda-feira · norte-americano · azul-escuro
Compostos cujos elementos mantêm acento próprio e não se fundiram numa só palavra.
O Acordo eliminou o hífen de algumas locuções de uso muito frequente, hoje grafadas sem ele: fim de semana, cor de laranja, cão de guarda. Manteve-o, porém, nos nomes de espécies botânicas e zoológicas (couve-flor, bem-te-vi) e em compostos em que o primeiro elemento perdeu transparência.
O hífen na prefixação
É aqui que reside a maior parte das dúvidas. A regra geral do Acordo organiza-se em torno da letra com que termina o prefixo e da letra com que começa o segundo elemento.
Há hífen quando:
- o segundo elemento começa por h: anti-higiénico, pré-história, super-homem;
- o prefixo termina na mesma vogal com que o segundo elemento começa: anti-ibérico, contra-almirante, micro-ondas, auto-observação;
- o prefixo termina na mesma consoante com que o segundo elemento começa: inter-regional, hiper-requintado, sub-bibliotecário;
- o prefixo é tónico e termina em vogal acentuada — pré-, pró-, pós- — ou é um dos prefixos ex-, vice-, sota-, soto-, circum- e pan-: pós-graduação, ex-marido, vice-reitor, pan-africano.
Não há hífen — e os elementos escrevem-se unidos — quando:
- o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por vogal diferente: autoestrada, antiaéreo, extraescolar, aeroespacial;
- o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por r ou s: nesse caso duplica-se a consoante: antirreligioso, antissocial, contrarregra, ultrassom, minissaia;
- o prefixo termina em consoante e o segundo elemento começa por vogal: hiperativo, interestadual, superinteressante.
| Situação | Com hífen | Sem hífen |
|---|---|---|
| vogal igual + vogal igual | *micro-ondas* | — |
| vogal + vogal diferente | — | *autoestrada* |
| vogal + *r*/*s* | — | *antirreligioso* (rr) |
| consoante igual + consoante igual | *inter-regional* | — |
| consoante + vogal | — | *hiperativo* |
| qualquer + *h* | *super-homem* | — |
O hífen com os pronomes clíticos
O hífen liga também os pronomes átonos (me, te, o, lhe, nos…) ao verbo, tanto na ênclise (pronome depois do verbo) como na mesóclise (pronome no interior do futuro e do condicional):
Vê-lo amanhã. · Deram-mo ontem. · Dá-lo-ei à tua irmã.
[ˈve lu · ˈdɛ ɾɐ̃w̃ mu · ˌda lu ˈɐj]
Ênclise (vê-lo, deram-mo) e mesóclise (dá-lo-ei). O hífen é parte obrigatória da forma verbal.
Repare-se que na mesóclise podem surgir dois hífens numa só forma — dar-to-ia, far-se-á —, porque tanto o pronome como a desinência se prendem ao radical.
A translineação
A translineação é a partição de uma palavra entre duas linhas, assinalada por um hífen no fim da primeira. Faz-se, em regra, pela divisão silábica, com algumas cautelas próprias da escrita:
- não se separam os dígrafos que representam um só som — lh, nh, ch, gu, qu: ma-lha, u-nha, que-ro;
- separam-se, pelo contrário, os dígrafos rr, ss, sc, sç e xc, cujas letras vão para sílabas diferentes: car-ro, pas-so, nas-cer, des-ço, ex-ce-to;
- um grupo de consoante + l ou r que se pronuncia numa só sílaba não se divide: re-gra, du-plo; mas separam-se os grupos que não podem iniciar sílaba em português: ap-to, rit-mo, op-ção, sub-li-nhar.
Convém ainda evitar deixar uma só letra isolada no fim ou no princípio da linha (á-gua, idei-a): embora silabicamente correto, é desaconselhado por clareza gráfica. A translineação é, no fim de contas, uma questão de legibilidade — ao contrário do hífen ortográfico, que faz parte da própria palavra.
Fontes
- Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (Bases XV–XX) . Diário da República (1990)
- Nova Gramática do Português Contemporâneo . Edições João Sá da Costa (1984)
- Moderna Gramática Portuguesa . Nova Fronteira (2009)
- Atual — O Novo Acordo Ortográfico . Texto Editores (2008)