Aprender 学 · 04

Alfabeto e pronúncia

As letras do português e os sons que representam — vogais, nasais, dígrafos e as regras de leitura essenciais para quem começa, com o português europeu como referência.

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O português escreve-se com o alfabeto latino e, à primeira vista, parece familiar a quem conhece o espanhol, o francês ou o inglês. A surpresa está nos sons: a mesma letra pode valer mais do que um som, e — sobretudo no português europeu — muitas vogais átonas quase desaparecem. Esta página dá as regras de leitura essenciais para começar a pronunciar com confiança.

As 26 letras

Desde o Acordo Ortográfico de 1990, o alfabeto português tem oficialmente 26 letras, com a reintegração de k, w e y (usadas sobretudo em nomes próprios, símbolos e estrangeirismos). Cada letra tem um nome:

LetraNomeLetraNomeLetraNome
aájjotasesse
bkcapat
cleleuu
dmemev
eénenewdâblio
fefeoóxxis
gpyípsilon
hagáqquêz
iirerre

O h não tem som próprio: é mudo no início de palavra (hora, homem) e só “trabalha” dentro dos dígrafos ch, lh e nh.

As cinco vogais — e a redução vocálica

As vogais escrevem-se a, e, i, o, u, mas o seu valor depende de estarem ou não na sílaba tónica (acentuada). Tónicas, e e o podem ser abertas ou fechadas — uma distinção que muda o significado:

avô (avó) · sede («thirst») vs sede («headquarters»)

O acento circunflexo marca a vogal fechada [o]/[e]; o agudo, a aberta [ɔ]/[ɛ].

Fora da sílaba tónica, o português europeu reduz fortemente as vogais. É o traço que mais distingue a sua sonoridade: o e final torna-se um som brevíssimo [ɨ] ou desaparece, e o o final soa [u] .

Vogais átonas no português europeu
EscritaSomExemploLeitura
o final[u]*gato*[ˈɡatu]
e final[ɨ] / ø*pinta* / *pode*[ˈpĩtɐ] / [ˈpɔdɨ]
a átono[ɐ]*cama*[ˈkɐmɐ]

Por isso Lisboa soa [liʒˈboɐ] e telefone perde quase toda a primeira vogal: [tlˈfɔn] , na fala corrente.

As vogais nasais

Quando uma vogal é seguida de m, n (na mesma sílaba) ou leva til (~), pronuncia-se pelo nariz. O m e o n aqui não soam como consoantes: apenas nasalizam a vogal. O ditongo -ão é o som mais emblemático da língua.

Vogais e ditongos nasais
SímboloEscritaExemploSignificado
[ɐ̃]an / am / ã*lã*wool
[ẽ]en / em*pente*comb
[ĩ]in / im*fim*end
[õ]on / om*bom*good
[ũ]un / um*um*a / one
[ɐ̃w̃]-ão*pão*bread
[õj̃]-õe*põe*puts

Consoantes e dígrafos que surpreendem

A maior parte das consoantes lê-se como em inglês ou espanhol, mas há casos que convém memorizar logo no início:

  • c e g são “duros” antes de a, o, u (casa, gato) e “moles” antes de e, i: c soa [s] (cidade), g soa [ʒ] (gelo). O ç (cedilha) vale sempre [s]: praça.
  • s muda com a posição: [s] no início (sopa), [z] entre vogais (casa [ˈkazɐ] ). No fim de sílaba, no português europeu, soa [ʃ] — como o sh inglês: as casas [ɐʃ ˈkazɐʃ] .
  • dígrafos: ch = [ʃ] (chave), lh = [ʎ] (ilha), nh = [ɲ] (vinho).
  • r: simples entre vogais é um toque breve, [ɾ] (caro [ˈkaɾu] ); inicial ou duplo (rr) é forte, [ʁ], na garganta (rato, carro [ˈkaʁu] ).
  • j e g (antes de e, i) soam [ʒ], como o j francês: , hoje.

O senhor José trabalha na cidade.

[u sɨˈɲoɾ ʒuˈzɛ tɾɐˈβaʎɐ nɐ siˈðaðɨ]

«Mr José works in the city.» — repare em nh, j e c-mole numa só frase.

Acentos e sinais

Os sinais gráficos guiam a leitura:

  • acento agudo (´) — vogal tónica aberta: café, ;
  • acento circunflexo (^) — vogal tónica fechada: português, avô;
  • til (~) — nasalidade: mãe, nação;
  • cedilha (¸) — o ç com valor [s]: coração;
  • acento grave (`) — apenas a contração de a + a: à, àquele.

A regra geral de acentuação tónica é simples: sem acento gráfico, as palavras terminadas em -a, -e, -o (e seus plurais) são graves (acento na penúltima sílaba: mesa, gato); as terminadas noutras consoantes ou em -i, -u são agudas (última sílaba: animal, café leva acento por exceção).

Por onde começar

Não é preciso dominar tudo de uma vez. Para o ouvido e a boca de um principiante, três hábitos rendem mais do que qualquer regra:

  1. enfraquecer as vogais átonas finais (-o > [u], -e > [ɨ] ou mudo);
  2. nasalizar com naturalidade o -ão e as vogais antes de m/n;
  3. distinguir o r breve do r forte, e o s [ʃ] no fim de sílaba.

Com isto, a leitura em voz alta deixa de ser adivinhação. O resto — as vogais abertas e fechadas, os casos do x — afina-se com a exposição e a prática.

Fontes

  1. Raposo, Nascimento et al. (eds.). Gramática do Português . Fundação Calouste Gulbenkian (2013)
  2. Maria Helena Mateus & Ernesto d'Andrade. The Phonology of Portuguese . Oxford University Press (2000)
  3. Celso Cunha & Lindley Cintra. Nova Gramática do Português Contemporâneo . Edições João Sá da Costa (1984)