Aprender 学 · 03

Português europeu ou brasileiro: qual aprender?

Como escolher entre a variedade europeia e a brasileira do português — o que muda na prática, o que é partilhado e que critérios devem orientar a decisão de quem começa.

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Uma das primeiras dúvidas de quem começa a estudar português é qual das duas grandes variedades escolher: o português europeu (PE), falado em Portugal, ou o português brasileiro (PB), falado no maior país lusófono. A resposta curta é tranquilizadora: trata-se da mesma língua. Um falante de Lisboa e um falante de São Paulo entendem-se sem dificuldade, leem os mesmos livros e partilham uma ortografia comum. A escolha não é, portanto, entre duas línguas, mas entre dois sotaques e dois conjuntos de hábitos — e deve guiar-se por motivos práticos.

Uma língua, duas normas

O português é uma língua pluricêntrica: tem mais do que um centro normativo de prestígio. Portugal e o Brasil codificaram, ao longo do tempo, padrões próprios de pronúncia, de vocabulário e de algumas construções gramaticais. A distância entre eles é, grosso modo, comparável à que separa o inglês britânico do americano: substancial na fala do dia a dia, mas sem comprometer a compreensão mútua nem a unidade da língua escrita formal.

O essencial é partilhado. A morfologia verbal, a estrutura da frase, a maior parte do léxico e — desde o Acordo Ortográfico de 1990 — a base da grafia são comuns às duas variedades. O que aprende numa norma transfere-se quase todo para a outra.

O que realmente muda

As diferenças concentram-se em quatro planos.

Pronúncia. É aqui que o contraste mais se nota. O PE reduz fortemente as vogais átonas, a ponto de muitas quase desaparecerem, o que dá à língua um ritmo “comprimido”; o PB tende a pronunciar as vogais de forma mais plena e aberta.

A mesma palavra, dois sotaques
PalavraPortuguês europeuPortuguês brasileiro
*pegar*[pɨˈɣaɾ][peˈɡa(h)]
*dente*[ˈdẽt(ɨ)][ˈdẽtʃi]
*leite*[ˈlɐjt(ɨ)][ˈlejtʃi]

No PB, o t e o d antes de i tornam-se africados — dente soa [ˈdẽtʃi] —, traço ausente da norma europeia. Já o PE elimina frequentemente a vogal final, deixando grupos consonânticos que ao ouvido estrangeiro podem soar abruptos.

Tratamento e pronomes. Em Portugal, tu é a forma corrente de tratamento informal, com a sua conjugação própria (tu falas, tu tens). No Brasil, você domina largamente, levando o verbo na terceira pessoa.

Vocabulário. Há centenas de pares de palavras divergentes para realidades comuns, sobretudo no quotidiano.

autocarro (PE) / ônibus (PB) · comboio / trem · pequeno-almoço / café da manhã · telemóvel / celular · casa de banho / banheiro

Pares típicos: a palavra europeia à esquerda, a brasileira à direita. São diferenças de uso, não de correção.

Gramática e ortografia. As diferenças gramaticais existem mas são menores (colocação dos pronomes, uso de preposições, o gerúndio acima referido). Na escrita, o Acordo de 1990 aproximou as grafias; subsistem, ainda assim, algumas divergências sistemáticas, como a acentuação de palavras do tipo económico (PE) / econômico (PB).

Que critérios devem decidir

Não há variedade “melhor” nem mais “pura”: ambas são plenamente legítimas e cultas. A escolha deve ser pragmática, em função de:

  • Destino e laços. Para viver, estudar ou trabalhar em Portugal — ou noutro país de norma próxima da europeia, como Angola ou Moçambique —, o PE é o caminho natural. Para o Brasil, o PB.
  • Exposição e materiais. O Brasil produz um vastíssimo volume de média, música e conteúdos online, o que torna o PB muito fácil de ouvir todos os dias. Os recursos de PE são mais escassos, mas suficientes e em crescimento.
  • Exames e certificação. Se precisa de um diploma oficial — por exemplo, para nacionalidade ou para uma universidade portuguesa —, verifique qual variedade é avaliada (o sistema CAPLE/CIPLE, em Portugal, segue a norma europeia).
  • Gosto e ouvido. Muitos aprendentes escolhem simplesmente o sotaque de que mais gostam ou aquele a que estão mais expostos. É um critério válido.

A escolha desta obra

Esta referência adota o português europeu como voz da casa: a ortografia oficial em Portugal, segundo o Acordo de 1990, e o vocabulário e a sintaxe distintivamente europeus. As particularidades brasileiras — e as de outras variedades — aparecem sempre que são pertinentes, assinaladas como contraste. Seja qual for a norma que escolher para falar, compreenderá ambas: é, no fim, uma só língua.

Fontes

  1. Volker Noll. Português Europeu e Português Brasileiro — Aspetos Linguísticos e Culturais . Vervuert (2008)
  2. Maiden, Smith & Ledgeway (eds.). The Cambridge History of the Romance Languages . Cambridge University Press (2013)
  3. Raposo et al. (eds.). Gramática do Português . Fundação Calouste Gulbenkian (2013)